A CIÊNCIA, AS RELAÇÕES DE PODER E OS RISCOS


Por José Quitério Correia
            O mundo do século XXI é de longe totalmente diferente do que sempre foi. Como já apontado em meados do século anterior por Martin Heidegger, em A coisa (Das Ding), o homem consegue viajar grandes distâncias em intervalos de tempo cada vez menores. Lembremos que os grandes voos internacionais vieram para substituir as viagens de navio que duravam meses. Não obstante, apontava Heidegger, a informação avança numa velocidade tremenda. E olha que Heidegger está se referindo a meios de comunicação como o rádio e talvez ao nascimento da televisão. Hoje, em pleno século XXI, temos uma ferramenta muito mais eficaz, que não apenas nos informa sobre acontecimentos em qualquer parte do mundo, mas que nos permite escolher o tipo informação e o momento mais conveniente para a obter. Naturalmente, estamos falando da internet. Talvez essa seja a principal ferramenta da Globalização: a internet. Mas, antes de falar sobre a mesma, vamos fazer um breve exercício de pensamento.
Segundo Sigmund Freud, o homem sofre de um mal estar na civilização/cultura, pois a mesma cria regulações que promovem a frustração e a coação de seus instintos. Entretanto, ainda é vantajoso fazer parte da civilização, pois o conhecimento adquirido ao longo dos séculos permite com que o homem cada vez mais controle as forças da natureza, extraindo dela bens para a sua satisfação. Nesse sentido, a finalidade da civilização é proteger o homem dos temores advindos da natureza. E isso é feito de diversas maneiras: os remédios produzidos curam-lhe as doenças, a tecnologia desenvolvida lhe proporciona moradia que lhe protege dos perigos do mundo da natureza, as criações psíquicas, como os ideais religiosos e as artes, fornecem-lhe satisfações que substituem o sacrifício que fez quanto aos próprios instintos, etc.
            Dando prosseguimento ao que foi pontuado por Freud, o homem (civilizado) tem a constante necessidade de encarar as forças da natureza. Faz isso quando tenta projetar construções mais resistentes a ventos fortes, quando tenta projetar veículos mais resistentes e menos poluentes ou mesmo quando tenta descobrir novos tratamentos para as mais diversas doenças. Ou seja, o homem está numa corrida para saber mais, pois isso significa poder mais. Aqui chegamos ao nosso ponto de partida: a relação que há entre conhecimento (ciência), o poder e os riscos inerentes a tudo isso.
            Segundo o sociólogo e filósofo francês Jean Baudrillard, “onde aumenta o poder salvador, aumenta o poder destruidor”. O que isso significa? A nossa sociedade entra numa busca cada vez mais acelerada pelo conhecimento. Pessoas em todas as partes do mundo estão pesquisando coisas novas nas mais diversas áreas. Algumas estão pesquisando medicamentos novos, outras estão desenvolvendo motores de carros, aviões ou até mesmo foguetes espaciais. Com efeito, o mundo, liderado pelas grandes potências econômicas, está inserido numa corrida pelo conhecimento e isso tem uma razão muito simples: como já dizia Francis Bacon, conhecer é poder. De fato, há uma relação entre o conhecimento científico produzido e o poder exercido.
Qualquer pessoa que não tenha problemas de ordem psíquica entende que, no que se refere a problemas cardíacos, um cardiologista é o médico que deve ser consultado. Logo, é dado a esse indivíduo o poder de direcionar as nossas ações, dizendo como devemos nos comportar, o que não comer, que dosagem de um fármaco X consumir, etc.
Contudo, isso não é uma descoberta dos nossos dias, os discípulos de Sócrates já sabiam disso. Quem entende de navegação é o comandante, quem entende de saúde é o médico e assim por diante. Isso é um recurso muito utilizado por Platão nos diálogos socráticos. Mas, o que se apresenta de novo nessa relação entre conhecimento e poder? Talvez, relembrando Baudrillard, o poder salvador e o poder destruidor nunca estiveram tão próximos.
Analisando eventos do século passado, lembramos da corrida armamentista entre grandes potências, muito recurso investido em pesquisa científica para desenvolver armas. Como resultado disso, tivemos mortes em uma quantidade como nunca tinha ocorrido na história da humanidade e também as terríveis bombas atômicas lançadas em duas cidades japonesas. De fato, armas tem o potencial de garantir a paz, uma vez que podem inibir ações de homens tirânicos, que não se importam com nada além de obter o poder. O risco é que, uma vez caindo em mãos erradas, essas armas passam de uma salvaguarda para uma ameaça.
Um ponto que ainda vale destacar sobre a questão do armamento é que já existem armas biológicas. Ou seja, gazes tóxicos, vírus manipulados em laboratórios, nano robôs que podem invadir um organismo e destruí-lo silenciosamente por dentro e substâncias diversas podem ser usadas contra a população. Por outro lado, o avanço científico permite vislumbrar um horizonte onde diversas doenças podem ser tratadas com mais sucesso. Os mesmos nano robôs podem realizar operações menos agressivas num futuro não muito distante. Imagina que, ao diagnosticar um tumor em órgão vital, poderia utilizar tais robôs para adentrar no organismo e remover o tecido cancerígeno logo no início e sem trauma algum para o paciente. Seria maravilhoso. Ou seja, por um lado temos os riscos do avanço do conhecimento científico, que pode ser utilizado para a simples dominação da população, trazendo consigo o próprio risco de exterminar a vida na terra. Por outro lado, temos a esperança de que o conhecimento científico nos proporcione vidas melhores, mais saudáveis ou até mesmo mecanismos de defesa contra um possível corpo estranho que algum dia venha na direção de nosso planeta. Portanto, mais uma vez, “onde aumenta o poder salvador, aumenta o poder destruidor”.
            Agora gostaria de voltar ao tema da globalização e o papel da internet. Essa ferramenta contribui como nenhuma outra para que o mundo seja cada vez mais globalizado. Se no século XVI um rei precisaria de cartas para obter informações de terras distantes, hoje em dia a internet permite que um chefe de estado obtenha as mesmas informações em tempo real. Se há três décadas era preciso esperar dias para obter notícias de um parente distante, hoje em dia a internet permite que os familiares conversem e se vejam em tempo real. Se antes um admirador de determinado artista comprava posters para ver a mesma foto de seu ídolo todos os dias, hoje a internet permite que ele veja o registro em fotos, vídeos ou mesmo em momentos ao vivo do dia a dia de seu admirado. Além disso, a internet permite que se façam compras, que se estude, que se trabalhe no conforto do seu lar. Não obstante, há décadas as pessoas precisavam de que alguém o levasse no rádio ou na televisão para que mostrassem seus talentos. Hoje, graças à internet, uma pessoa talentosa pode se filmar fazendo o que sabe e mostrar-se para o mundo inteiro. Não são poucos os casos de pessoas que conseguiram reconhecimento dessa forma.
            Tudo o que falamos no parágrafo anterior são pontos positivos, mas também há problemas. Hoje, graças à internet, momentos infelizes onde uma pessoa age equivocadamente pode ficar marcado por muito tempo e tomar proporções gigantescas. Fotos de nudez vazadas, vídeos onde alguém fala alguma bobagem e logo se torna réu em um julgamento virtual, ataques homofóbicos, racistas, xenófobos ou de outra natureza por pessoas que se sentem protegidas pelo suposto sigilo virtual. Além disso, temos contas de e-mails e arquivos pessoais roubadas por hackers, golpes financeiros e talvez o mais assustador de todos: o controle que algumas poucas pessoas podem ter sobre o nosso gosto sobre quanto gastamos, onde e o que compramos e etc.
            Em suma, a internet representa bem a globalização porque tem um potencial muito grande de chegar aos lugares mais longínquos, por oferecer a possibilidade de qualquer pessoa em qualquer parte do mundo interagir com pessoas de toda a parte. Contudo, há fortes riscos que vão desde o vazamento da intimidade de indivíduos e questões que colocam em risco a segurança de nações, como quando o órgão de inteligência de um país é espionado por hackers. Ou seja, o poder salvador, aquilo que melhora as coisas, aumentou, mas o poder destruidor, que tornam as coisas piores, também cresceu proporcionalmente.
            Por último, queria adentrar nas relações de poder que se estabelecem em nível micro, nos mais diversos grupos de indivíduos. Segundo Paul-Michel Foucault, existe no mundo contemporâneo (globalizado) a figura do panóptico, que seria um mecanismo de controle social onde as pessoas obedecem regras de forma orgânica. Mas, antes de detalharmos melhor, devem lembrar que no início desse breve texto fizemos uma referência a Freud e sua ideia de civilização. Aqui, no pensamento foucaultiano, temos um raciocínio similar, mas com uma contribuição original do filósofo francês, sobre a qual discorremos a seguir.
O poder não deve ser visto como um objeto que as pessoas possuem, mas apenas como algo que é exercido. Nesse sentido, ninguém possui o poder, as pessoas exercem o poder. Além disso, entende-se o poder em nível macro e em um nível micro. O nível macro está para o poder do estado enquanto que no nível micro estamos falando do poder exercido nos pequenos grupos de indivíduos. É sobre esse último que Foucault discorre em obras como Vigiar e punir e, sobretudo, em A microfísica do poder. Segundo o pensador, o panóptico é aplicado sempre que se tem grupos limitados de pessoas e, para explicá-lo melhor, o autor recorre a uma analogia. Imagina uma espécie de prisão circular com uma torre no meio. Nessa torre fica um guarda que vê o que todas as pessoas estão fazendo em suas celas, mas as pessoas que estão nas celas não conseguem vê-lo. Imagine também que em uma dessas celas temos funcionários em uma empresa, em outra temos crianças na escola, em outra temos presidiários propriamente, depois um casal conversando e coisas dessa natureza. Perceba que as celas representam os diversos ambientes onde ocorrem relações sociais. O ponto é que, mesmo que o guarda se retire por um momento ou até se retire e não mais volte para seu posto, a suposição de que ele está vigiando a todos garante que as pessoas continuem agindo de acordo com as regras estabelecidas.
Ora, nas nossas relações sociais, as coisas acontecem da mesma maneira. O poder é exercido por diversos indivíduos sem que pertença a nenhum deles. Talvez você esteja sujeito ao poder na sala do seu chefe, mas exerça poder diante dos demais funcionários da empresa. Talvez no seu relacionamento alguém exerça mais poder sobre o outro. Talvez em sua casa você sujeite-se ao poder de seus pais em alguns aspectos, mas exerça poder sobre eles em outros. O que queremos dizer com todos esses exemplos é que, segundo Foucault, o poder é exercido por todos em algum momento, portanto, nessa microfísica do poder, todos somos agentes e o que há são relações de poder.
Isso é uma característica de nosso tempo e possivelmente isso possa estar relacionado com problemas psíquicos nas formas mais diversas. As pessoas acostumam-se com essas relações e, com o passar do tempo, aceitam ser natural fazer consultas com médicos especializados nessa área para desabafar sobre todas as situações que sofre no dia a dia e que lhe causam estresse. E porque as pessoas assim o fazem? Nunca sabemos se o guarda está na torre central ou não, então pressupomos que está e agimos de acordo com as regras estabelecidas em cada contexto onde temos relações de poder. Dessa forma, tornamo-nos pessoas dóceis e produtivas.

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